Constituição Cidadã completa 37 anos: ex-deputado, Tadeu França, relembra polêmica proposta de limitar propriedades rurais a 2 mil hectares por família

Neste 5 de outubro, o Brasil celebra os 37 anos da Constituição Federal de 1988, conhecida como Constituição Cidadã. O marco histórico da redemocratização brasileira resgata lembranças de intensos debates travados na Assembleia Nacional Constituinte — entre eles, o protagonizado pelo então deputado federal Tadeu França, que defendeu a limitação da propriedade rural a 2 mil hectares por família.

A proposta, apresentada sob o lema “Terra: dois mil hectares por família”, buscava garantir o direito à propriedade, mas também promover justiça social e equilíbrio fundiário no país. A iniciativa, porém, gerou forte reação.

“A modesta faixa que ousei instalar discretamente ante a mesa da Assembleia Nacional Constituinte valeu-me protestos de toda ordem”, recorda França. “Os súditos do latifúndio nacional e internacional gritavam: ‘Comunista! O seu lugar é Cuba, traidor!’”, relembra.

Segundo o ex-parlamentar, nem mesmo o esclarecimento de que havia votado a favor do direito de propriedade foi suficiente para conter as críticas. “Em pouco tempo, sumiram com a minha bandeira”, conta.

Resistência e apoio minoritário

França recorda que apenas uma minoria dos constituintes apoiava a ideia de um planejamento rural nacional, enquanto a simples menção à reforma agrária “atiçava a fúria dos comandados por Ronaldo Caiado, líder da UDR (União Democrática Ruralista)”.

Mesmo assim, ele insistia que o limite de 2 mil hectares era uma medida razoável e compatível com a realidade rural do país.

“Considero justo que o direito à propriedade rural contemple, por excelência, as famílias que vivem e trabalham no campo, cabendo à reforma agrária apenas as áreas que excedessem esse limite”, argumentava.

Do campo à exclusão social

O ex-deputado também faz uma leitura crítica sobre as transformações sociais no campo, destacando o desaparecimento dos bóias-frias e a substituição da mão de obra humana pela mecanização da lavoura.

“Os trabalhadores do campo são uma espécie em extinção. Hoje, filhos e netos dos ex-bóias-frias costumam ser vistos entre os moradores de rua em todas as regiões do país”, observa.

Durante a ditadura militar, segundo França, 46,7% das famílias brasileiras não tinham renda suficiente para garantir uma alimentação adequada. O período, conhecido como o “milagre econômico”, foi marcado por grandes obras — como Itaipu, rodovias e a Transamazônica — e por um aumento de 30 vezes na dívida externa ao longo de 21 anos.

O interesse estrangeiro e o latifúndio

O ex-constituinte também chama atenção para o interesse internacional nas riquezas do território brasileiro, especialmente nas chamadas “terras raras” da Amazônia, ricas em manganês e nióbio.

França cita que, desde o século passado, os Estados Unidos mantêm levantamentos aerofotogramétricos da região e menciona empresas e grupos estrangeiros que se tornaram grandes proprietários de terras no Brasil:

Família Rockefeller, com 331 mil hectares em Mato Grosso;

Liquigás, com 577 mil hectares na região do Araguaia;

Brazilian Land Cattle Packing e Universal Overseas Holding, que adquiriram terras em Minas Gerais e Goiás.

Ele recorda as palavras do saudoso Dom Pedro Casaldáliga, então bispo de São Félix do Araguaia:

“Cada dia sentimos aqui — como povo e como Igreja — a iníqua e sofisticada estrutura da opressão. Estamos condenados ao latifúndio capitalista.”

Uma emenda derrotada, mas atual

O ex-deputado lamenta que sua emenda constitucional nacionalista tenha sido derrotada, mas afirma que o tema permanece atual, diante da concentração fundiária e da falta de planejamento agrícola no Brasil.

“Os países mais ricos do planeta não abrem mão de um planejamento agrícola altamente produtivo. Infelizmente, minha proposta terminou derrotada”, conclui

Professor Tadeu França
Ex- deputado Federal Constituinte

Edição : Edilson Correia